A Síndrome do Vira-lata Moderno
Estamos vivendo a Síndrome do Vira-lata Moderno e ela pode estar infectando milhares de pessoas a cada dia. Entenda o que é e como evitar.
Até então conhecemos a “síndrome do vira-lata”, um complexo de inferioridade cultural em que menosprezamos nossas realizações perante os outros. Porém, os tempos mudaram e, com isso, a Síndrome também.
Estamos vivendo a Síndrome do Vira-lata Moderno e ela pode estar infectando milhares de pessoas a cada dia.
Para começar, veja essa situação:
Um homem entrou em um barco furado e passou horas reclamando do rio, do vento e de quem havia construído o barco. Tudo aquilo podia realmente estar errado, mas a água continuava entrando. Enquanto ele procurava culpados, outro homem pegou um balde, começou a tirar a água e perguntou: “Realmente estamos cheios de problemas, mas, se você ficar parado, irá se afogar. Então, em vez disso, que acha de tirarmos a água do barco?”
Problemas não faltam em nossa rotina. Sim, o mundo está cada vez mais acelerado, sim, muitas vezes os governantes nos deixam na mão, sim, precisamos pagar muito para receber pouco, sim, está calor, sim, está difícil.
Agora, com tantos problemas, podemos começar a pensar nas soluções. Como diria o primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, o otimista vê em uma calamidade uma oportunidade, enquanto o pessimista vê em uma oportunidade uma calamidade.
Não devemos maquiar a realidade. Sim, estamos vivendo um momento histórico de grandes adversidades. Porém, há muito que podemos fazer para melhorar nossas vidas.
Culpar o meio nada mais é que aliviar a nossa própria responsabilidade. Porém, quanto mais fazemos isso, mais aumentamos nossa Síndrome.
O Vira-lata Moderno é aquele que relembra as glórias das civilizações passadas, sem reconhecer o mesmo potencial atual. “Que incríveis eram os egípcios. Hoje nada podemos fazer”, diz o paciente da Síndrome.
“Antigamente existiam vários gênios; ó, como eram especiais… Nada como os velhos tempos! Hoje nada mais presta e nada mais é bom”, diz o paciente da Síndrome.
“Este país e este mundo estão perdidos! Está tudo errado e é impossível crescer aqui!”, diz o paciente da Síndrome.
O paciente moderno da Síndrome do Vira-lata se condiciona a reclamar do presente e dificultar a própria vida. Não busca soluções para os vários problemas. Não tenta perceber o que está de fato no seu controle e o que está totalmente fora do que pode controlar.
Não se trata de uma abordagem passiva. Muito pelo contrário. Se trata de reconhecer o que podemos atuar e agir com a maior força que temos!
Esses dias ouvi uma dona de restaurante falando o quão difícil é empreender no meio alimentício (e realmente não tenho dúvidas de que é super desafiador). Falando que os aplicativos de delivery a exploram, que os clientes não entendem a dificuldade, que dão nota ruim ao alimento que ela faz com carinho, que tudo é difícil… E dava para perceber na expressão dela um olhar de vítima da sociedade. Em paralelo, no mesmo dia, ouvi uma outra dona de restaurante dizendo que fatura mais de 450 mil reais por mês em seu restaurante, graças aos aplicativos de delivery. Veja bem: uma olha para a calamidade, outra para a oportunidade.
Cada um sabe sua dor, isso é inegável. Agora, há uma tendência cada vez maior de vitimização. Afinal, nos é ensinado que, quando estamos doentes, ganhamos presentes e bons cuidados. Logo, tendemos a inconscientemente replicar este padrão em outros âmbitos da vida (a fim de ganhar presentes e bons cuidados). Porém, quem só é vítima jamais será herói. Quem vive somente em prol das circunstâncias jamais será o protagonista da própria história.
Todos os seres humanos têm o potencial de refletir e agir sobre o que lhes compete. É da natureza humana pensar e criar. Precisamos mais do que nunca nos lembrar disso. E viver uma vida em que podemos agir sobre as causas e não apenas sobre os sintomas.
Há aqueles que, ao passar por uma goteira no teto, simplesmente passem por cima do chão molhado e reclamem de que o sapato ficou ensopado e inutilizável. “Está tudo molhado, não dá para usar! Que injusto é esse local”, dizem. Há quem passe pela mesma goteira, pegue um pano e limpe o chão. Depois de algum tempo, passam também pelo chão molhado e dizem: “Eu faço de tudo, mas não tem como! Continua molhado esse chão. Que injusto é esse local!”. Por fim, há aqueles que, ao passarem pela mesma goteira, olham para cima e percebem o furo no teto. Daí, primeiro concertam o vazamento, depois limpam o chão molhado. “Que grande vazamento era, mas no fim deu tudo certo”, dizem.
Veja bem: atuar sobre as causas dá mais trabalho. Como diria no livro “A Boa Sorte”, de Alex Rovira e Fernando Trías de Bes, a sorte rotineira (como ganhar algo sem esforço) é passageira. Mais de 90% daqueles que ganham na loteria perdem tudo dentro de 10 anos. Agora, os que se esforçam nas oportunidades, que se mantêm firmes no propósito, que acreditam na possibilidade (mesmo sem um único indicador que possa dar certo), prosperam e encontram a Boa Sorte. Não foi acaso. Foi trabalho dia após dia. Foi pensar, refletir e agir sobre o que pode ser feito.
A Síndrome do Vira-lata Moderno poderá se tornar uma epidemia caso as pessoas não comecem a pensar e refletir antes de agir. Afinal, todos nós estamos sujeitos a tal Síndrome. Por isso é importante todos os dias monitorarmos nossos pensamentos e ações.
Pois, por mais difícil que esteja, há certos elementos sobre os quais podemos realizar uma ação. E que, se repetirmos aquela ação, mesmo sem a certeza do resultado, podemos ter uma grande surpresa positiva.
Então, sim, as coisas realmente são difíceis (obs.: todo ser vivo tem dificuldades), porém isso deveria ser um impulsionamento.
Encare a vida como uma grande aventura e trate dificuldades como fases a serem passadas e vencidas. Aja sobre o que pode agir. O que está totalmente fora do que pode fazer, compreenda como parte do processo. Veja em calamidades, oportunidades e sempre siga firme em monitorar seus pensamentos e ações.
Assim poderemos evitar que a Síndrome do Vira-lata Moderno se espalhe.
A mudança sempre vai começar em você. Não espere do céu e nem do seu ambiente. Espere de você.
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Artigo original de Arthur Cunha Souza Lima. © 2026 Arthur Cunha Souza Lima. Publicado em SER | Desenvolvimento Pessoal.